Há quem diga que o tempo cura tudo, mas o tempo não
me curou de nada até hoje. E a culpa não é do tempo, ele não é remédio, não foi
feito para curar coisa alguma. Não há ferida para ser curada, mas sim uma
amputação, perdi uma parte importante de mim, muito mais importante que um
braço ou uma perna, perdi minha filha, pode cicatrizar, mas,nunca voltará a ser
igual,perdi!!!E quando perdemos não há nenhum outro igual, pode haver prótese
para um braço ou uma perna amputada, mas nunca será o teu braço e a tua perna,e
nunca mais será igual ao teu membro amputado!Passados oito meses, continuo
exatamente da mesma forma. Não voltei a ser quem eu era. Vivo uma vida de
“verdade”, sem me apegar a coisas fúteis e materiais.
É impossível voltar a ser como antes, quando o
coração se parte, após algum tempo, as cicatrizes continuam lá, e passamos a
ver e viver a vida de outra forma, como ser como antes, se uma parte de mim
morreu junto com ela? O luto faz parte do processo de restauração, e esquecer
seria um não-viver. A minha vida vai continuar,
preciso continuar, eu sei, mas jamais será a mesma. Penso que tenho de ser
sempre verdadeira e ser feliz quando for possível, pois me é impossível
esquecê-la.
A saudade que sinto a falta que a Letícia me faz, a
infância que não viveu, são coisas que machucam, mas, inexplicavelmente, uma
força extraordinária não permite que o meu luto me deixe com pena de mim mesma,
tenho muita pena de outras mulheres que perderam seus filhos, mas de mim não
sinto pena, esta dor seca, silenciosa, reforça a lembrança, que por sua vez
aguça a saudade que me faz estar com a Letícia para sempre perto de mim, principalmente
nas situações mais difíceis, ou quando estou sozinha.Ela está aqui do meu
lado,e isso me dá forças para continuar.
Letícia você vive em meus pensamentos, e esquecer
seria um sofrimento maior do que a própria morte, pois significaria não tê-la mais.
Ninguém a arrancou de mim: você continua comigo. O tempo todo, você
esteve aqui, comigo. Impossível não sentir isto. Impossível não ser feliz. Sua
partida foi algo inesperado e inexplicável, mas estou bem. Mantenho a fé e a
esperança na ressurreição, quando a verei de novo. Acredito nisto.
Até
breve, minha eterna bebê.



